O ativo que mais cresce nas empresas não aparece no balanço e pode definir o valuation
03 de julho de 2026
Migalhas
Durante décadas, o mercado aprendeu a avaliar empresas a partir de ativos tangíveis: fábricas, estoques, imóveis, máquinas e caixa. Esse modelo segue relevante, mas tornou-se insuficiente para explicar por que companhias com estruturas semelhantes apresentam diferenças bilionárias de valor. O motivo está nos ativos intangíveis - e boa parte deles continua subestimada no mundo corporativo brasileiro.
Marcas, patentes, desenhos industriais, dados, software, reputação e relacionamento com clientes passaram a concentrar parcela crescente do valor econômico das empresas. Sob a perspectiva da ABNT NBR ISO 560051, que estabelece diretrizes para a gestão da propriedade intelectual em processos de inovação, esses ativos devem ser compreendidos em conjunto com as capacidades tecnológicas da organização, entendidas como o estoque de recursos que sustenta sua capacidade inovadora, incluindo sistemas físicos, conhecimentos e tecnologias incorporadas, sistemas organizacionais e recursos humanos. É a combinação desses elementos que viabiliza a geração, proteção e captura de valor e lucros por meio da inovação.
Ainda assim, muitos desses ativos não aparecem integralmente nos balanços, nem são geridos de forma estratégica e tampouco entram corretamente nas discussões de valuation. Mais grave: Frequentemente a propriedade intelectual é tratada apenas como uma atividade jurídica ou registral, quando na realidade constitui um ativo estratégico capaz de assegurar o retorno dos investimentos realizados em inovação.
A consequência prática é direta: Empresas podem estar sendo negociadas abaixo do seu valor real
Levantamentos internacionais mostram a dimensão da mudança. Segundo estudo amplamente citado da Ocean Tomo, mais de 90% do valor de mercado das companhias do S&P 500 já passou a ser representado por ativos intangíveis, movimento oposto ao observado há quatro décadas, quando predominavam ativos físicos. Em paralelo, rankings globais como o Kantar BrandZ indicam que as marcas mais valiosas do mundo somam trilhões de dólares em valor econômico agregado.
Não se trata de abstração financeira. O mercado atribui prêmio às empresas que conseguem transformar reputação, diferenciação e inovação em geração previsível de caixa. Entretanto, sob a ótica da gestão da propriedade intelectual, é importante destacar que um direito de propriedade intelectual não se converte automaticamente em ativo intangível gerador de valor. Patentes, marcas, softwares, desenhos industriais ou segredos de negócio somente se consolidam como ativos estratégicos quando são explorados economicamente no mercado, seja por meio de comercialização direta, licenciamento, transferência de tecnologia, expansão de mercado ou fortalecimento de vantagem competitiva. Caso contrário, representam apenas despesas associadas à manutenção de registros, anuidades e custos administrativos.
Uma marca forte, por exemplo, permite cobrar preços premium, reduzir sensibilidade a crises, diminuir custo de aquisição de clientes e acelerar expansão para novos mercados. Já uma tecnologia protegida por patente ou segredo industrial pode garantir barreiras competitivas por anos. Bases de dados, ecossistemas digitais e softwares proprietários criam recorrência e dependência operacional. A propriedade intelectual, nesse contexto, funciona como o mecanismo que protege os resultados da inovação e assegura condições para sua apropriação econômica.
Em linguagem simples: ativos intangíveis sustentam margem, crescimento e vantagem competitiva. E é exatamente isso que investidores compram.
No Brasil, porém, a maturidade ainda é desigual. Em muitas empresas médias e familiares, a gestão patrimonial segue concentrada em imóveis, caixa e operação, enquanto marcas estratégicas permanecem sem registro robusto, contratos tecnológicos carecem de proteção adequada e iniciativas de inovação não têm governança clara. A própria NBR ISO 56005 destaca que a gestão da propriedade intelectual deve envolver atividades estruturadas de identificação, proteção, desenvolvimento, gestão de portfólio e exploração dos ativos intelectuais, alinhadas à estratégia corporativa.
Esse desalinhamento costuma aparecer nos momentos mais sensíveis: entrada de investidor, captação, fusão, aquisição, sucessão societária ou disputa concorrencial.
Em processos de M&A, por exemplo, não é incomum que empresas aparentemente sólidas sofram descontos relevantes após a due diligence identificar fragilidades em ativos intangíveis. Entre os problemas recorrentes estão marcas em nome de terceiros, ausência de proteção internacional, softwares sem titularidade definida, passivos regulatórios digitais, patentes sem estratégia comercial, inexistência de políticas de confidencialidade e contratos que desconsideram cláusulas de propriedade intelectual relacionadas à titularidade, uso, licenciamento e exploração econômica dos ativos. Na prática, valor que parecia consolidado evapora na mesa de negociação.
O avanço da IA tornou esse cenário ainda mais urgente. Se antes a diferenciação dependia de escala física e distribuição, agora novos concorrentes podem surgir com velocidade inédita, operando estruturas leves e forte capacidade tecnológica. Nesse ambiente, uma marca confiável e uma gestão da propriedade intelectual estruturada, capaz de potencializar ativos complementares da empresa - como marketing, canais de distribuição, relacionamento com clientes e rede de fornecedores - funcionam como escudos competitivos e instrumentos de ampliação de receitas, fortalecendo a capacidade de captura de valor dos ativos intangíveis.
Além disso, surge uma nova disputa: presença algorítmica. Empresas começam a competir não apenas pela atenção do consumidor, mas por relevância em motores de busca, marketplaces e assistentes baseados em IA. Quem não constrói autoridade de marca corre o risco de perder visibilidade antes mesmo da etapa comercial.
Para conselhos de administração e CEOs, a agenda mudou. Já não basta discutir EBITDA, expansão geográfica ou corte de custos. Cresce a necessidade de responder perguntas mais estratégicas: qual parcela do valor da companhia depende de intangíveis? As marcas estão protegidas nos mercados prioritários? A inovação gera receita nova ou apenas despesa? O portfólio tecnológico aumenta ou reduz risco competitivo? Quanto valor pode estar fora do balanço? E, sobretudo, quando a PI de fato vira um ativo intangível?
Sob a ótica da NBR ISO 56005, a resposta passa necessariamente pela gestão estratégica do portfólio de propriedade intelectual. Não basta acumular registros de marcas, patentes ou softwares. É necessário construir um portfólio alinhado à missão, visão e objetivos estratégicos da organização, especialmente às estratégias de inovação e comercialização. A gestão de portfólio permite priorizar investimentos, identificar ativos com maior potencial de exploração econômica, reduzir custos associados a ativos desalinhados à visão estratégica e ampliar a vantagem competitiva da empresa no mercado.
As empresas que enfrentarem essas questões de forma técnica tendem a capturar prêmio de valuation. As que ignorarem o tema podem descobrir tarde que o principal patrimônio do negócio estava desprotegido, subavaliado ou invisível. Mais do que proteger ativos, torna-se essencial transformá-los em fontes concretas de geração de receita, por meio do uso efetivo, do licenciamento, franquias, transferência de tecnologia, parcerias estratégicas ou novos modelos de negócio baseados em conhecimento.
Na economia contemporânea, o ativo mais valioso nem sempre ocupa espaço físico. Em muitos casos, ele está no capital reputacional da empresa, no algoritmo que desenvolveu, na confiança que construiu ou no conhecimento que ainda não soube mensurar. Mas seu verdadeiro valor somente se materializa quando existe uma estratégia estruturada de gestão e comercialização da propriedade intelectual, capaz de converter inovação em resultado econômico. E isso, cada vez mais, define preço, posição e mercado.
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